Sim, a mulher pode participar da escolha da posição para fazer força
Quando a gente pensa no nascimento, a imagem que costuma aparecer é a mulher deitada de costas, pernas levantadas e alguém contando até dez. Essa cena é comum em filmes e maternidades, mas não é a única maneira de atravessar o período expulsivo. Se as condições da mãe e do bebê permitirem, a mulher pode experimentar posições e escolher aquela em que se sente mais segura, firme e confortável.
A Organização Mundial da Saúde recomenda apoiar a posição escolhida pela própria mulher, incluindo posições verticalizadas, tanto para quem está sem analgesia epidural quanto para quem recebeu epidural. Isso não significa que exista uma postura perfeita para todo parto. Significa que nenhuma posição deveria ser imposta automaticamente sem explicação.
De lado, semissentada, ajoelhada, de quatro apoios, agachada com suporte ou inclinada para a frente são algumas possibilidades. A escolha pode mudar durante o processo. O corpo pede uma coisa numa contração e outra na seguinte; trocar não é indecisão, é adaptação.
Também existem momentos em que a equipe pode sugerir uma mudança para ouvir melhor os batimentos, facilitar um procedimento, melhorar a circulação, ajudar a rotação do bebê ou responder a uma alteração clínica. Autonomia não é ficar sozinha com a decisão: é receber informação, ser ouvida e participar do plano possível naquele momento.
Você não precisa escolher uma única posição antes do parto. Pode conhecer opções, experimentar com segurança e mudar conforme o corpo, o bebê e a situação pedirem.
Fazer força acontece no segundo período do trabalho de parto
O segundo período começa quando o colo do útero está completamente dilatado e termina com o nascimento. Dentro dele, pode existir uma fase mais passiva, quando a dilatação já completou mas o bebê ainda desce e a vontade de empurrar não apareceu, e uma fase ativa, quando há puxo involuntário, esforço dirigido ou a parte do bebê fica visível.
Ter dez centímetros não obriga todo corpo a empurrar no mesmo segundo. Sem uma urgência, a equipe avalia descida, posição do bebê, contrações, sensação da mulher e batimentos fetais. Com epidural, a vontade pode ficar mais discreta e a estratégia pode ser diferente.
A sensação de puxo costuma parecer uma pressão muito forte no reto, como vontade de evacuar. Algumas mulheres sentem o corpo empurrar sozinho; outras precisam de orientação. Uma experiência não é mais correta que a outra.
É importante não fazer força antecipadamente por conta própria ao sentir pressão. Avise a equipe para que ela avalie dilatação, descida e segurança. Empurrar muito cedo pode cansar sem ajudar o nascimento.
Deitada de costas não é a única posição possível
A posição ginecológica, de costas e com pernas apoiadas, facilita a visão e o acesso dos profissionais. Em algumas situações ela pode ser necessária ou escolhida pela mulher. O problema é tratá-la como padrão obrigatório quando outras posturas seriam possíveis.
Ficar totalmente de costas pode ser desconfortável e, em algumas mulheres, o peso do útero comprime grandes vasos, provocando mal-estar ou queda de pressão. Uma pequena inclinação lateral, apoio com travesseiros ou outra postura pode melhorar o conforto.
Se você gosta de ficar deitada, não precisa abandonar essa escolha para ter um parto ‘mais natural’. O cuidado baseado em respeito não troca uma imposição por outra. A pergunta é se a posição está confortável, segura, permite acompanhar o bebê e ajuda o nascimento naquele momento.
A posição lateral pode trazer descanso e abrir espaço para adaptação

Deitar de lado, com a perna de cima apoiada por acompanhante, profissional, travesseiro ou suporte da cama, é uma opção para quem está cansada, sente tontura em pé ou recebeu analgesia. Ela permite descansar entre as contrações sem ficar completamente de costas.
A lateral também pode ser ajustada: mais inclinada para a frente, com o joelho superior dobrado ou com a cama elevada. Não existe um ângulo universal. A equipe ajuda a manter pernas e quadris seguros, principalmente quando a sensibilidade está reduzida.
Para algumas mulheres, essa postura facilita controlar o ritmo do nascimento e seguir a vontade espontânea de empurrar. Para outras, não parece firme o suficiente. Vale testar, respirar e mudar se não estiver funcionando.
Posições verticalizadas usam o apoio do corpo e da gravidade

Agachada com suporte, sentada numa banqueta de parto, ajoelhada ou em pé inclinada sobre a cama são posições verticalizadas. Elas podem facilitar a sensação de usar o peso do corpo e permitir movimentos da pelve. Algumas mulheres dizem que se sentem mais ativas e menos presas.
Agachar sem apoio por muito tempo cansa pernas e joelhos. A ideia não é fazer exercício nem provar resistência. Uma barra firme, a cama, um lençol de tração, o acompanhante ou uma banqueta própria podem dar sustentação. O piso deve estar seco e a equipe precisa estar preparada para acompanhar a mudança.
Posição vertical não garante parto mais rápido, não impede laceração e não substitui avaliação. Ela é uma opção, não uma promessa. Se surgir tontura, fraqueza, alteração nos batimentos ou dificuldade de monitorização, sente ou deite com ajuda.
De quatro apoios ou ajoelhada pode aliviar as costas
Ficar com joelhos e mãos apoiados, ou ajoelhada e inclinada sobre a cabeceira, bola ou pilha de travesseiros, tira o peso direto do sacro. Essa postura pode ser confortável para quem sente dor lombar intensa ou quer espaço para balançar a pelve.
Os punhos podem cansar. Apoiar os antebraços, usar travesseiros e elevar a cabeceira ajuda. Joelhos precisam de superfície macia e estável. Com analgesia, talvez seja necessário apoio extra para entrar e sair da posição.
Às vezes a equipe sugere quatro apoios para tentar favorecer uma rotação do bebê, mas não há garantia. Se a postura piora a dor ou causa insegurança, mude. O corpo não deve virar projeto de engenharia no meio de uma contração.
Semissentada pode ser confortável e facilitar a comunicação
Na posição semissentada, a cabeceira fica elevada e o tronco recebe apoio. As pernas podem ficar flexionadas, abertas com conforto ou sustentadas. É uma postura familiar para muitas mulheres e permite olhar para o acompanhante e para a equipe.
Ela não precisa ser igual à posição ginecológica. Inclinar um pouco para um lado, baixar as pernas entre as contrações ou usar apoios diferentes pode reduzir tensão. Se a mulher sente pressão no sacro, talvez outra posição alivie mais.
O importante é evitar que todos segurem o corpo à força. Apoio deve sustentar, não prender. Antes de tocar nas pernas ou mudar a inclinação, a equipe deve explicar e pedir consentimento sempre que houver tempo clínico.
O puxo espontâneo respeita a vontade do corpo
A OMS recomenda encorajar e apoiar a mulher a seguir a própria vontade de empurrar na fase expulsiva. Isso costuma significar fazer força quando vem o puxo, respirar do jeito que funciona e descansar entre as contrações, sem obrigação automática de prender o ar por uma contagem longa.
Algumas mulheres vocalizam, soltam o ar ou fazem esforços curtos. Outras preferem inspiração profunda e força mais sustentada. A equipe observa se o esforço está ajudando a descida e se mãe e bebê continuam bem.
O puxo dirigido pode ser útil quando a vontade não aparece, o esforço espontâneo não está efetivo, a mulher pede orientação ou existe necessidade de abreviar o nascimento. Orientar não precisa virar grito. Instruções curtas, claras e combinadas são mais acolhedoras.
Se uma orientação dá tontura, falta de ar ou medo, diga. Não existe prêmio para sair roxa tentando cumprir a contagem de outra pessoa. O padrão pode ser ajustado à situação.
Com epidural ainda pode haver escolha de posição

Receber epidural não obriga automaticamente a permanecer reta de costas. Dependendo da dose, força nas pernas, equipamentos e protocolo do serviço, podem ser possíveis posições laterais, semissentadas, com a cama adaptada ou até ajoelhadas com bastante assistência.
A prioridade é evitar quedas e lesões. Quando a sensibilidade diminui, a mulher pode não perceber que uma articulação está sendo forçada. Pernas, quadris e pés precisam de apoio, e toda mudança deve ser feita com ajuda.
A vontade de empurrar pode demorar a aparecer. A equipe avalia se existe espaço para esperar a descida, como estão os batimentos e quanto tempo já passou. Não copie a estratégia de outra pessoa: tipo de analgesia, paridade e evolução mudam a conduta.
Monitorização não deveria prender a mulher sem necessidade
Ouvir os batimentos do bebê faz parte do cuidado. Em baixo risco, a ausculta pode ser intermitente; em outras situações, a monitorização contínua pode ser indicada. Mesmo com sensores, muitas vezes existem ajustes de posição possíveis.
Pergunte se o fio alcança, se o sensor pode ser reposicionado ou se o serviço possui monitor sem fio. Às vezes uma postura dificulta o registro e a equipe pede alguns minutos em outra posição. Isso é diferente de proibir movimento durante todo o período sem explicar o motivo.
Se houver alteração persistente dos batimentos, sangramento, pressão muito baixa, febre ou outra preocupação, a liberdade pode precisar ser reduzida temporariamente para avaliação e tratamento. Segurança e autonomia não são inimigas; a boa comunicação faz as duas caberem no mesmo quarto.
Fórceps, ventosa ou urgência podem mudar a postura
Quando existe indicação de parto instrumental com fórceps ou ventosa, a equipe pode precisar posicionar a mulher de maneira que permita o procedimento. O mesmo vale para exame urgente, manobra específica ou preparação para cesariana.
A mudança deve ser explicada de forma objetiva: o que aconteceu, qual é o objetivo, quais riscos existem e o que será feito. Em emergência, a ação pode ser rápida, mas palavras simples como ‘os batimentos mudaram e precisamos ajudar o bebê agora’ mantêm a mulher dentro da própria história.
Depois que a situação passa, ela pode pedir que a equipe explique novamente. Não lembrar de tudo durante um momento intenso é comum. O acompanhante também pode anotar perguntas e ajudar a reconstruir o que aconteceu.
Sinais e situações que pedem avaliação rápida
Durante o parto, avise imediatamente se sentir falta de ar, desmaio, dor intensa e contínua fora das contrações, sangramento importante, dor no peito, alteração visual, fraqueza súbita ou sensação de que algo está errado. Diga também se percebeu redução importante dos movimentos antes de o parto avançar.
Em casa, vontade involuntária de empurrar, sangramento vermelho vivo, bolsa rompida com líquido verde ou marrom, convulsão, falta de ar, desmaio ou sinais de parto antes de 37 semanas pedem contato urgente com a maternidade ou serviço de emergência. Não pare para testar posição nem tente examinar a dilatação.
Na maternidade, mudança dos batimentos, prolapso de cordão, hemorragia ou outra emergência pode exigir que a equipe indique uma postura específica e acelere o nascimento. Nessa hora, adaptar o plano é cuidado, não perda de valor do parto.
- Sangramento em quantidade importante.
- Dor forte contínua entre as contrações.
- Desmaio, convulsão, falta de ar ou dor no peito.
- Líquido verde, marrom ou com cheiro ruim.
- Vontade de empurrar antes de chegar ao local de parto.
- Qualquer orientação de mudança por alteração materna ou fetal explicada pela equipe.
Situações práticas mostram por que a escolha é flexível
Primeira situação: uma mulher sem epidural sente alívio ajoelhada e inclinada sobre a cama. Os batimentos estão adequados e a equipe consegue acompanhar. Ela permanece assim e muda de lado quando os joelhos cansam.
Segunda situação: outra planejava agachar, mas fica tonta ao levantar. Ela deita de lado com apoio entre as pernas e descobre uma postura mais segura. Mudar o plano não significa que alguém venceu ou perdeu.
Terceira situação: com epidural, a mulher tem pouca força nas pernas. A equipe adapta a cama e ajuda a alternar entre lateral e semissentada, protegendo quadris e joelhos.
Quarta situação: a monitorização mostra uma alteração e a enfermeira pede que a mulher vire para o lado. Explica o motivo, reposiciona o sensor e chama avaliação médica. A escolha fica temporariamente limitada por uma necessidade concreta.
Quinta situação: a mulher prefere puxo espontâneo, mas depois de um tempo pede instruções porque está exausta. A equipe orienta esforços durante as contrações e revê a posição. Autonomia também é poder pedir ajuda.
Como registrar essa preferência no plano de parto
Você pode escrever: ‘Gostaria de ter liberdade para experimentar posições no período expulsivo e escolher a mais confortável, quando as condições maternas e fetais permitirem. Se uma posição específica for necessária, desejo receber explicação’. É claro, flexível e fácil de conversar.
No pré-natal, pergunte quais recursos existem: banqueta, barra, bola, cama articulada, monitor sem fio e apoio para lateral. Pergunte também como a maternidade trabalha com epidural e período expulsivo. Conhecer a estrutura evita imaginar uma opção que o local não oferece.
O acompanhante pode lembrar a preferência sem entrar em confronto. Uma frase útil é: ‘Ela queria tentar de lado; há alguma contraindicação agora?’. A resposta pode abrir espaço ou revelar um motivo clínico importante.
A melhor posição é a segura e possível para aquele momento
Pode escolher a posição para fazer força no parto? Em geral, sim: diretrizes atuais apoiam a posição escolhida pela mulher, incluindo posturas verticalizadas, e o respeito à vontade espontânea de empurrar. Escolha, porém, não é obrigação de manter a mesma postura até o fim.
A posição ideal pode ser lateral numa contração, ajoelhada na próxima e semissentada quando chega o cansaço. Se aparecer uma indicação clínica, a equipe deve propor adaptação, explicar o motivo e continuar ouvindo você sempre que houver tempo.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação obstétrica nem as orientações da equipe que acompanha seu parto. Converse no pré-natal sobre preferências, analgesia, recursos do local e situações em que o plano pode mudar.
Fontes consultadas
Conteúdo educativo elaborado a partir de referências reconhecidas. Acesse as fontes originais:
- OMS — Recomendações para cuidados intraparto e experiência positiva de parto
- OMS — Manual do Guia de Cuidados durante o Trabalho de Parto
- Ministério da Saúde — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal
- NICE — Intrapartum care (NG235)
- ACOG — First and Second Stage Labor Management (2024)
- HC-UFMG/Ebserh — Protocolo Assistencial ao Parto






