O susto costuma ser maior que o problema
Você vai assoar o nariz, olha o papel e vê sangue. Ou acorda com aquele gosto metálico na boca e já pensa que alguma coisa aconteceu com o bebê. Respira: na maioria das vezes, um sangramento que realmente vem do nariz não tem relação direta com a gestação estar em perigo. O NHS inclui os sangramentos nasais entre as mudanças comuns da gravidez e explica que as alterações hormonais ajudam a deixá-los mais frequentes.
O nome médico é epistaxe. Ela acontece quando pequenos vasos da parte interna do nariz se rompem. Essa região é cheia de vasinhos superficiais e recebe o ar que respiramos o dia inteiro. Se a mucosa fica inchada, ressecada ou irritada, basta assoar com força, coçar ou passar uma noite com o ar-condicionado ligado para um deles abrir.
Isso não significa que todo episódio deva ser ignorado. Um fio de sangue que para com pressão é bem diferente de um sangramento volumoso, que não cede, aparece depois de uma queda ou vem acompanhado de tontura. A ideia deste artigo é colocar cada situação na prateleira certa: sem pânico para o que costuma ser simples e sem demora quando existem sinais de alerta.
Também vale conferir de onde o sangue está vindo. Sangramento vaginal, sangue na urina, tosse ou vômito com sangue são situações diferentes e não devem ser chamados de sangramento nasal só porque o gosto chegou à boca. Se a origem não estiver clara, procure orientação profissional.
Sangue que vem do nariz não é sangramento vaginal. Se você não consegue identificar a origem, sente mal-estar ou percebe outro sintoma importante, peça avaliação.
Por que isso pode acontecer mais na gestação
Durante a gravidez, o corpo aumenta o volume de sangue circulando para sustentar a gestante, a placenta e o bebê. Ao mesmo tempo, mudanças hormonais podem deixar as mucosas mais inchadas e congestionadas. É aquela sensação de nariz entupido sem estar gripada, às vezes acompanhada de ronco e respiração pela boca.
Com mais fluxo nos vasos e uma mucosa sensível, pequenos traumas pesam mais. Assoar com força, cutucar uma casquinha, espirrar várias vezes ou esfregar o nariz por causa de coceira pode desencadear o sangramento. Ar seco, poeira, fumaça e ambientes com ar-condicionado também retiram umidade da mucosa.
Rinite, alergias, resfriados e sinusite podem aumentar a irritação. Alguns sprays nasais e medicamentos também merecem revisão, especialmente se estão sendo usados por conta própria. A gravidez não é hora de transformar a gaveta de remédios em balcão de farmácia: o produto que parece inocente pode não ser a melhor escolha para você.
A maioria dos episódios começa na parte anterior do septo, a parede que separa as narinas. Esse sangramento costuma responder à compressão correta. Sangramentos mais altos ou posteriores são menos comuns e podem escorrer com mais facilidade para a garganta, exigindo avaliação profissional.
Como estancar o sangramento do jeito certo

O primeiro passo é sentar ou ficar em pé, manter a cabeça erguida e inclinar um pouco o corpo para a frente. Não deite e não jogue a cabeça para trás. Quando a cabeça vai para trás, o sangue pode escorrer para a garganta, provocar tosse, engasgo, náusea ou vômito. Parece que o sangramento parou, mas ele apenas mudou de caminho.
Com o polegar e o indicador, aperte a parte macia do nariz, logo acima das narinas e abaixo da região óssea. Comprima os dois lados, mesmo que apenas uma narina pareça sangrar. Respire pela boca e mantenha pressão contínua por 10 a 15 minutos. Use o relógio do celular; cinco minutos no susto viram cinquenta segundos num piscar de olhos.
Não solte a cada minuto para conferir. Abrir e fechar a pressão atrapalha a formação do coágulo. Se o tempo terminar e ainda houver sangramento, repita a compressão enquanto busca orientação. Uma compressa fria por fora pode trazer conforto, mas não substitui o aperto no ponto certo.
- Sente-se e incline o corpo levemente para a frente.
- Aperte a parte mole do nariz, não apenas o osso do alto.
- Respire pela boca e conte de 10 a 15 minutos sem interromper.
- Cuspa o sangue que chegar à boca em vez de engolir.
- Se estiver sozinha e ficar tonta, chame alguém e procure atendimento.
Cabeça para trás é um costume antigo que não ajuda. Para o sangue sair pela frente e não descer pela garganta, sente-se e incline-se levemente para a frente.
O que não fazer durante o episódio
Não enfie papel, algodão, cotonete, pano ou qualquer objeto profundamente na narina. Além de machucar a mucosa, o material pode grudar no coágulo e fazer tudo sangrar de novo quando for retirado. Se um serviço de saúde precisar colocar um tampão nasal, ele será escolhido e posicionado de forma adequada.
Evite assoar com força para limpar todo o sangue durante o sangramento. Também não fique deitada, não aperte apenas o topo ósseo do nariz e não confie em receitas como café em pó, limão, pasta de dente ou ervas dentro da narina. O nariz já está irritado; colocar substâncias caseiras é como tentar apagar brasa com álcool.
Não use descongestionante vasoconstritor só porque alguém disse que ele corta sangramento. Há situações em que profissionais utilizam medicamentos locais, mas a escolha depende do produto, da dose, do histórico e da fase da gestação. Sprays descongestionantes podem causar efeito rebote e outros problemas quando usados sem orientação.
Se você toma aspirina, anticoagulante ou outro medicamento que interfere na coagulação por prescrição, não suspenda sozinha. Avise a equipe que acompanha a gestação e informe o nome, a dose e o horário do último uso ao procurar atendimento.
Depois que parar é hora de deixar o nariz quieto
Nas horas seguintes, o coágulo ainda está se firmando. Evite cutucar, assoar com força, fazer esforço pesado, abaixar a cabeça repetidamente ou tomar banho muito quente logo depois. Bebidas muito quentes também podem aumentar a dilatação dos vasos em algumas pessoas.
Se precisar espirrar, tente manter a boca aberta para reduzir a pressão dentro do nariz. Limpe apenas a parte externa com delicadeza. Uma pequena mancha escura ou casquinha pode aparecer; deixe que se solte sozinha.
Anote quando aconteceu, quanto tempo durou, de qual lado veio e o que estava fazendo. Essa informação é especialmente útil se os episódios se repetirem. Um sangramento isolado depois de assoar o nariz num dia muito seco conta uma história; sangrar várias vezes na semana, sem gatilho claro, conta outra.
Umidade e cuidado suave podem ajudar a prevenir

Se o clima está seco, manter a mucosa úmida pode reduzir rachaduras. Solução salina simples costuma ser usada para umidificar e limpar o nariz, mas peça orientação no pré-natal sobre a apresentação mais adequada e a frequência. Leia o rótulo: solução salina não é a mesma coisa que descongestionante medicamentoso.
Umidificador pode ajudar quando o ar está muito seco, desde que seja higienizado como o fabricante orienta. Água parada e aparelho sujo viram uma festa para microrganismos. Se não houver umidificador, reduzir o tempo direto no ar-condicionado e ventilar o ambiente já pode melhorar o conforto.
Beba água ao longo do dia conforme a orientação do seu pré-natal. Evite fumaça de cigarro e outros irritantes. Trate rinite e alergias com o profissional que acompanha você, porque viver esfregando e assoando o nariz mantém o ciclo de irritação.
Não passe pomadas, óleos essenciais, cânfora ou substâncias perfumadas dentro das narinas sem recomendação. Produtos oleosos também merecem cautela. O cuidado mais simples costuma ser o mais seguro: menos atrito, mais umidade adequada e tratamento correto da causa.
Sangramento nasal não é sinal confiável de pressão alta
Muita gente aprendeu que sangrou o nariz porque a pressão subiu. Na prática, não dá para medir pressão olhando o lenço. Hipertensão pode coexistir e merece acompanhamento, mas um sangramento nasal isolado não confirma pressão alta, e a ausência dele não garante que a pressão esteja normal.
Na gravidez, a preocupação com pressão aumenta porque pré-eclâmpsia precisa ser reconhecida rapidamente. Os sinais de alerta mais conhecidos incluem dor de cabeça forte ou persistente, alterações visuais, dor intensa na parte alta da barriga, falta de ar e inchaço súbito de rosto ou mãos. Algumas pessoas, porém, podem ter pressão alta sem perceber sintomas; por isso a medida nas consultas é indispensável.
Se o nariz sangrar junto com dor de cabeça importante, visão embaçada, pontos brilhantes, mal-estar ou uma pressão medida acima do limite orientado pela sua equipe, entre em contato com o serviço de saúde. Não atribua o conjunto apenas ao calor, à ansiedade ou ao nariz ressecado.
Quando marcar uma avaliação sem urgência

Converse no pré-natal se os sangramentos se tornaram frequentes, começam sem motivo claro, sempre ocorrem do mesmo lado ou estão atrapalhando o sono e a rotina. Também avise se há obstrução persistente, secreção com mau cheiro, dor no rosto, ferida que não cicatriza ou uso repetido de spray nasal.
Palpitações, cansaço fora do habitual, falta de ar e palidez podem levantar a possibilidade de anemia, especialmente quando existem outras perdas de sangue. O profissional decidirá se precisa examinar o nariz, medir a pressão, revisar medicamentos, pedir hemograma ou encaminhar para otorrinolaringologista.
Quem tem doença de coagulação, plaquetas baixas, doença do fígado ou usa anticoagulante precisa de orientação individual. Manchas roxas sem explicação, sangramento gengival intenso ou sangramento em outros locais junto com a epistaxe devem ser relatados.
Às vezes um vasinho específico precisa de tratamento local, como cauterização feita por profissional. Não tente reproduzir nada em casa. O objetivo não é apenas parar o episódio atual, mas entender por que ele voltou tantas vezes.
Procure atendimento rapidamente nestas situações
Se houver desmaio, falta de ar importante, sangramento incontrolável ou trauma significativo, procure urgência. Não dirija se estiver tonta. No Brasil, o SAMU atende pelo 192 quando existe uma emergência.
O tempo usado como limite varia um pouco entre orientações, porque importa também a quantidade, a resposta à compressão e o estado da pessoa. Na dúvida, um sangramento que continua apesar da técnica correta não é coisa para esperar a próxima consulta.
- O sangramento é volumoso, encharca vários lenços ou escorre muito para a garganta.
- Não para após 20 a 30 minutos de compressão correta e contínua.
- Você sente tontura, fraqueza, desmaio, falta de ar, palpitação intensa ou confusão.
- Começou depois de queda, batida no rosto, acidente ou outro trauma.
- Existe dificuldade para respirar ou o sangue provoca engasgo repetido.
- O episódio ocorre enquanto você usa anticoagulante ou tem problema conhecido de coagulação.
- Há dor de cabeça forte, alteração visual, dor na parte alta da barriga, inchaço súbito ou pressão alta medida.
- Há sangramento vaginal, redução dos movimentos do bebê ou outro sinal obstétrico junto com o episódio.
Três situações práticas para não ficar perdida
Primeira situação: depois de uma noite com ar-condicionado, a gestante assoa o nariz e vê algumas gotas. Senta, inclina-se para a frente, comprime por 15 minutos e o sangramento para. Ela evita assoar de novo, hidrata a mucosa conforme orientação e comenta no pré-natal se voltar a acontecer. Esse é o padrão mais comum.
Segunda situação: o nariz sangra três ou quatro vezes na mesma semana, às vezes durante a noite. Para com compressão, mas voltou a atrapalhar. Não parece emergência naquele momento, porém merece consulta para revisar ressecamento, rinite, medicamentos, pressão e outras causas.
Terceira situação: após uma queda, começa um sangramento forte, o nariz fica dolorido e a gestante sente tontura. Aqui não é hora de testar umidificador nem esperar em casa. Ela procura atendimento para avaliar o trauma, a perda de sangue e a gestação.
A pergunta que ajuda é simples: parou com a técnica correta e eu estou bem? Se sim, cuide da mucosa e observe. Se não parou, foi muito, se repete demais ou veio com outros sintomas, peça ajuda. Nariz teimoso não precisa virar motivo de vergonha nem campeonato de resistência.
O que levar para a conversa no pré-natal
Informação organizada economiza adivinhação. Não precisa levar o lenço numa sacolinha, mas uma anotação no celular ajuda muito. Se possível, registre também o que fez para estancar e se a pressão contínua funcionou.
Sangramento nasal na gravidez geralmente é uma mudança incômoda e controlável. O segredo não é fingir que nada aconteceu nem imaginar o pior: é comprimir no lugar certo, proteger a mucosa e reconhecer quando o episódio saiu do roteiro comum.
- Quantas vezes aconteceu e quanto tempo cada episódio durou.
- Se veio de uma narina ou das duas e se escorreu para a garganta.
- Se havia ar seco, resfriado, rinite, espirros ou esforço para assoar.
- Quais sprays, vitaminas, aspirina, anticoagulantes ou outros remédios você usa.
- Se surgiram manchas roxas, sangramento na gengiva, palidez ou cansaço diferente.
- Se mediu a pressão e quais outros sintomas estavam presentes.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação no pré-natal. Sangramento intenso, persistente, após trauma ou acompanhado de mal-estar exige atendimento.
Fontes consultadas
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