Não a episiotomia não deve fazer parte de todo parto
Episiotomia é um corte cirúrgico feito no períneo, a região entre a abertura da vagina e o ânus, para ampliar a saída durante um parto vaginal. A resposta direta à dúvida é: não, esse corte não é necessário em todo parto normal e não deve ser realizado de rotina. A Organização Mundial da Saúde recomenda uma política de uso seletivo, e diretrizes como a do NICE também orientam que ele não seja feito rotineiramente em partos vaginais espontâneos.
Isso não significa que a episiotomia nunca seja indicada. Em algumas situações, a equipe pode considerar que ampliar a saída ajuda a abreviar o nascimento ou facilita um parto vaginal assistido. A decisão deve ser individual, baseada no que está acontecendo naquele momento, explicada à mulher e feita com consentimento. O simples costume do serviço, a ideia de que é o primeiro parto ou uma previsão de que o bebê parece grande não transformam o procedimento em obrigação.
Também vale tirar um peso das costas: aceitar uma episiotomia indicada não significa que o parto falhou, assim como preferir evitá-la não é garantia de um períneo intacto. Parto não é prova de desempenho. Informação serve para participar das decisões, fazer perguntas e entender por que uma intervenção está sendo proposta — não para controlar cada centímetro de um processo que pode mudar rapidamente.
Episiotomia não é etapa obrigatória do parto vaginal. Quando considerada, precisa ter uma razão clínica naquele momento, explicação e consentimento.
Qual é a diferença entre episiotomia e laceração
A episiotomia é uma incisão planejada feita por um profissional. A laceração é um rasgo que acontece espontaneamente quando os tecidos se distendem durante o nascimento. As duas podem precisar de pontos, provocar dor e exigir cuidados na recuperação, mas não são a mesma coisa. Algumas lacerações são pequenas e atingem apenas pele e mucosa; outras podem envolver músculos mais profundos. A equipe classifica a extensão para orientar o reparo e o acompanhamento.
Durante muitos anos, a episiotomia foi usada com a intenção de evitar lacerações graves, acelerar o parto e proteger o assoalho pélvico. Com o avanço das pesquisas, ficou claro que fazer o corte de rotina não entrega esses benefícios para todas as mulheres e ainda expõe muitas delas a uma ferida cirúrgica desnecessária. Por isso, a prática mudou de liberal para seletiva em diretrizes atuais.
A episiotomia também pode se estender e virar uma lesão maior. Por outro lado, existem cenários específicos em que o profissional avalia que um corte controlado pode ser mais seguro que esperar a evolução sem intervenção. Não dá para prever com certeza quem terá uma laceração nem comparar duas experiências apenas pelo número de pontos. A pergunta mais útil é se havia uma indicação clara e se a mulher participou da decisão.
Em quais situações o corte pode ser considerado

Segundo o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, a episiotomia pode ser necessária quando há preocupação com o bem-estar do bebê e é importante abreviar o nascimento, quando será usado fórceps ou ventosa, ou quando existe avaliação de risco de uma laceração perineal grave. Não é uma lista automática: mesmo dentro dessas situações, a equipe considera posição do bebê, elasticidade dos tecidos, progresso do parto, experiência do profissional e alternativas disponíveis.
Num parto assistido com ventosa ou fórceps, por exemplo, episiotomia não é sinônimo de obrigação em todos os casos. O profissional avalia o espaço necessário para usar o instrumento com segurança e os riscos individuais. Se o coração do bebê mostra sinais preocupantes e a cabeça já está próxima de nascer, alguns minutos podem fazer diferença; ainda assim, a equipe deve explicar de forma direta o que pretende fazer e por quê.
A linguagem pode ser simples mesmo num momento urgente: ‘o bebê precisa nascer mais rápido; recomendamos um corte para criar espaço; vamos anestesiar e reparar depois’. Informação curta não é ausência de informação. Quando não existe urgência, há mais tempo para discutir benefícios, possíveis danos e alternativas. Perguntar ‘o que mudou agora?’ e ‘o que acontece se esperarmos um pouco?’ pode ajudar a entender a recomendação.
- necessidade de abreviar o nascimento por preocupação com o bebê
- alguns partos vaginais assistidos com fórceps ou ventosa
- avaliação individual de risco de lesão perineal grave
- outras circunstâncias específicas explicadas pela equipe durante o parto
Consentimento continua importante durante o trabalho de parto
Estar em trabalho de parto não retira o direito de receber explicações e participar das decisões. O consentimento para uma episiotomia não deveria ser presumido porque a mulher entrou na maternidade, assinou papéis na admissão ou escreveu que deseja parto normal. O RCOG é claro ao dizer que o procedimento só deve ser realizado com consentimento.
Consentir não é apenas ouvir ‘vou dar um pique’ segundos antes. Sempre que a situação permitir, a equipe deve dizer o nome da intervenção, a razão, o benefício esperado, os riscos relevantes e se há alternativas. A mulher pode pedir que expliquem novamente, chamar o acompanhante para ajudar a ouvir e fazer perguntas. Em uma emergência, a conversa pode ser breve, mas ainda precisa ser respeitosa e objetiva.
Se você não quer episiotomia de rotina, pode registrar isso no plano de parto e conversar no pré-natal. Uma frase possível é: ‘Prefiro que a episiotomia não seja realizada rotineiramente. Se houver indicação, quero receber uma explicação e dar meu consentimento antes’. O plano não é contrato que congela o parto; ele funciona como ponto de partida para diálogo quando a situação muda.
Uma preferência escrita no plano de parto ajuda a conversa, mas a decisão deve ser retomada no momento, com a indicação real e o consentimento da mulher.
É possível reduzir o risco de trauma no períneo

Algumas medidas podem favorecer um nascimento mais fisiológico e diminuir certos traumas, mas nenhuma promete períneo intacto. Liberdade para mudar de posição, respeitar a vontade de fazer força e evitar puxos dirigidos sem necessidade são pontos que podem ser conversados com a equipe. Compressa morna aplicada ao períneo no período expulsivo aparece em recomendações de assistência e pode reduzir lacerações graves em alguns contextos.
Massagem perineal nas últimas semanas de gravidez pode ser considerada por algumas gestantes depois de orientação do pré-natal. Ela não deve ser feita se houver contraindicação, infecção, sangramento ou orientação para evitar manipulação vaginal. Não é preciso suportar dor nem usar receitas caseiras. O benefício é possível, não uma garantia, e deixar de fazer massagem não significa que a mulher ‘não se preparou’ para parir.
Durante a saída da cabeça, a equipe pode usar técnicas de proteção perineal e orientar um ritmo mais lento quando as condições permitem. A posição escolhida precisa combinar conforto, segurança e monitorização necessária. Deitada, de lado, de quatro apoios, agachada ou apoiada: não existe uma pose campeã para todas. O melhor cenário é aquele em que a mulher consegue se movimentar e recebe orientação sem coerção.
Evitar episiotomia não deve virar uma corrida para rejeitar qualquer intervenção. Se surgir uma indicação, peça explicação e participe da decisão. O objetivo é reduzir procedimentos desnecessários e oferecer cuidado seguro quando eles realmente ajudam — não trocar uma regra antiga por outra regra rígida.
O que acontece quando a episiotomia é feita
Se a episiotomia for indicada e consentida, a região deve receber anestesia local, a menos que uma analgesia regional, como a peridural, já esteja oferecendo alívio adequado. O corte é feito quando a cabeça do bebê está próxima de nascer. Depois do nascimento e da saída da placenta, o profissional examina o períneo, verifica a extensão da lesão e realiza o reparo com pontos absorvíveis.
A mulher pode perguntar quem fará o procedimento, qual anestesia será usada e como será o cuidado depois. Se sentir dor durante o reparo, deve avisar; não é necessário aguentar calada porque o bebê já nasceu. Analgesia adequada e comunicação também fazem parte da assistência pós-parto.
Os pontos geralmente se dissolvem com o tempo e não precisam ser retirados. A equipe deve explicar higiene, controle da dor, sinais de infecção, retorno e o que fazer se a ferida abrir. Antes da alta, vale pedir a classificação da lesão e registrar a informação, especialmente se houve extensão para uma laceração mais profunda.
Como cuidar dos pontos e do desconforto em casa

Dor e sensibilidade são comuns nos primeiros dias, e o RCOG informa que pode haver incômodo por duas a três semanas. A pele costuma cicatrizar ao longo das semanas, mas o ritmo varia. Lave a região com água, seque delicadamente, troque o absorvente com frequência e lave as mãos antes e depois. Não coloque álcool, perfume, pomada, ervas, duchas ou produtos caseiros sem orientação.
Uma bolsa fria envolvida em pano por períodos curtos pode aliviar nas primeiras horas ou dias. Nunca encoste gelo diretamente na pele. Analgésicos precisam considerar alergias, outras doenças, amamentação e o que foi prescrito na alta. Sentar de lado ou usar apoio macio pode ajudar, mas boias muito rígidas podem concentrar pressão; ajuste conforme o conforto e a orientação do serviço.
Hidratação, alimentos com fibras e não adiar a vontade de evacuar ajudam a evitar fezes endurecidas. Fazer cocô não costuma abrir os pontos, embora o medo seja comum. Se houver constipação importante, converse com um profissional antes de usar laxante. Para urinar, jogar água morna sobre a região pode diminuir ardência para algumas mulheres.
Retome caminhadas, exercícios, relações sexuais e outras atividades aos poucos, respeitando dor e sangramento. Não existe um relógio único para voltar à vida sexual. Cicatrização, desejo, lubrificação, sono e segurança emocional contam. Dor persistente não deve ser tratada como preço inevitável da maternidade; avaliação e fisioterapia pélvica podem ajudar quando indicadas.
Quais sinais pedem avaliação profissional
A tendência é a dor diminuir gradualmente. Procure avaliação se ela está piorando, se a área fica cada vez mais inchada ou quente, se aparece pus, secreção com mau cheiro, febre ou sensação de doença. Pontos abrindo, sangramento intenso ou dificuldade importante para urinar também precisam de orientação sem demora.
Perder fezes ou gases sem controle, sentir urgência intestinal nova ou ter dor forte ao evacuar pode indicar uma lesão mais profunda e merece investigação. Não tenha vergonha de contar: esses sintomas têm tratamento e o acompanhamento precoce pode melhorar a recuperação. Procure urgência se houver sangramento que encharca absorventes rapidamente, desmaio, falta de ar, dor no peito ou piora súbita do estado geral.
Mesmo sem sinais de emergência, marque revisão se a ferida parece não fechar, se a dor impede sentar, dormir ou cuidar do bebê, ou se a relação sexual continua muito dolorosa após a cicatrização inicial. Saúde perineal inclui conforto, continência e sexualidade; não é apenas observar se os pontos ‘caíram’.
- dor que aumenta em vez de melhorar
- febre, calafrios, pus ou cheiro desagradável
- ferida abrindo, sangramento intenso ou inchaço crescente
- dificuldade para urinar ou perda de fezes e gases sem controle
- dor persistente que limita a rotina ou a vida sexual
Ter feito uma vez não obriga a fazer nos próximos partos
Uma episiotomia anterior não determina que o procedimento se repita. Em uma gestação futura, conte à equipe como foi a cicatrização, se houve extensão, dor prolongada, infecção ou sintomas no assoalho pélvico. Essas informações ajudam a planejar o cuidado. Muitas mulheres têm outro parto vaginal sem novo corte.
Também é válido pedir o prontuário ou o resumo de alta para entender o que aconteceu. Algumas pessoas só descobrem depois que houve episiotomia ou não sabem por que ela foi realizada. Conversar sobre a experiência pode trazer clareza, inclusive quando o parto deixou lembranças difíceis. Se houver sofrimento intenso, flashbacks, medo ou sensação de violência, apoio psicológico e uma conversa de revisão com a maternidade podem ser importantes.
No próximo plano de parto, registre preferências sem transformar o passado em destino. Você pode pedir medidas de proteção perineal, liberdade de posição, comunicação antes de procedimentos e uso seletivo da episiotomia. A equipe precisa avaliar o parto que está acontecendo agora, não repetir uma intervenção apenas porque ela aparece no histórico.
O resumo para levar ao pré-natal
Episiotomia não é necessária em todo parto normal e não deve ser rotina. Ela pode ser considerada em situações específicas, como alguns partos assistidos, preocupação com o bebê que exige abreviar o nascimento ou risco individual de lesão grave. A indicação deve ser explicada, e o consentimento continua sendo parte do cuidado.
Pergunte ao serviço qual é a política de episiotomia, como a equipe trabalha posições e proteção do períneo e de que maneira as decisões são comunicadas. No plano de parto, diga que prefere evitar o uso rotineiro e quer conversar caso surja uma indicação. Informação antes do trabalho de parto deixa menos coisa para decidir no calor do momento — porque, convenhamos, contração não é exatamente a trilha sonora ideal para uma aula completa.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação médica ou obstétrica. Durante a recuperação, procure atendimento diante de febre, pus, mau cheiro, abertura da ferida, dor crescente, sangramento intenso, dificuldade para urinar ou perda de fezes e gases. O cuidado respeitoso junta duas coisas que nunca deveriam competir: segurança clínica e participação da mulher.
Não é rotina, não é fracasso e não é decisão automática. Episiotomia é uma intervenção seletiva que exige indicação, explicação, consentimento e cuidado depois.
Fontes consultadas
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